Santa Catarina chega ao segundo semestre de 2026 com um paradoxo no orçamento doméstico. O Estado apresenta um mercado de trabalho aquecido e indicadores financeiros melhores que a média brasileira, mas o dinheiro continua curto para uma parcela significativa das famílias.
Em julho, 76,9% das famílias catarinenses tinham algum tipo de dívida. O percentual avançou 0,6 ponto em apenas um mês e alcançou o maior nível da série recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Ao mesmo tempo, 23,6% estavam com contas atrasadas. Embora o percentual seja inferior à média brasileira, os números mostram que aproximadamente três em cada quatro famílias catarinenses começam o mês com parte da renda comprometida por dívidas.
Juros elevados, cartão de crédito, prestações e despesas essenciais ajudam a explicar por que a percepção do consumidor nem sempre acompanha os bons indicadores de emprego.
Santa Catarina está melhor que o Brasil
O cenário catarinense precisa ser observado em perspectiva. No Brasil, o percentual de famílias endividadas chegou a 82% em julho. Em Santa Catarina, ficou em 76,9%.
A diferença também aparece na inadimplência. Enquanto 29,8% das famílias brasileiras tinham contas em atraso, o percentual catarinense era de 23,6%. O dado estadual, inclusive, apresentou melhora. Em junho, 25,4% das famílias estavam inadimplentes. Em julho, houve redução de 1,8 ponto percentual.
Isso significa que Santa Catarina apresenta maior capacidade de pagamento que a média nacional. Não significa, porém, que o orçamento esteja folgado. A parcela de famílias catarinenses que declarou não ter condições de quitar as dívidas atrasadas ficou em 9,5%.
Outro número ajuda a dimensionar o problema: em média, 29,9% da renda das famílias estava comprometida com dívidas. Na prática, quase um terço da renda já pode chegar ao orçamento com destino definido.
Cartão de crédito continua presente no orçamento
O cartão de crédito segue como a principal modalidade de endividamento entre os catarinenses. Em julho, ele estava presente em 69,6% das famílias endividadas no Estado.
O percentual caiu em relação a períodos anteriores, enquanto modalidades como crédito consignado e financiamento de veículos ganharam espaço. Ainda assim, o cartão permanece como uma ferramenta importante para compreender a dinâmica do orçamento doméstico.
Quando utilizado para parcelar despesas ou complementar a renda disponível, compras realizadas hoje comprometem os salários dos meses seguintes. O cenário fica mais difícil quando não há pagamento integral da fatura e entram os juros.
Com o crédito caro, o consumidor que já tem pouca margem financeira encontra maior dificuldade para reorganizar as contas.
Emprego forte não significa necessariamente dinheiro sobrando
O mercado de trabalho é um dos pontos que diferenciam Santa Catarina de boa parte do país.
No primeiro trimestre de 2026, o Estado tinha cerca de 4,5 milhões de pessoas ocupadas, segundo a PNAD Contínua do IBGE. A população desocupada era estimada em 126 mil pessoas.
Os números mostram uma economia com elevada participação da população no mercado de trabalho.
No Brasil, a taxa de desemprego ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril. O rendimento médio real habitual alcançou R$ 3.732, apesar de dados contestados por especialistas por conta do número de famílias recebendo auxílio emergencial e, por isso, não busca emprego formal.
Mas emprego e salário contam apenas uma parte da história. Para saber quanto efetivamente sobra no bolso, é necessário descontar alimentação, habitação, transporte, energia, serviços, prestações e dívidas anteriores.
É justamente essa diferença entre ter renda e ter renda disponível que ajuda a compreender o comportamento mais cauteloso das famílias.
Catarinense está mais cauteloso para comprar
Outro indicador reforça essa mudança de comportamento. A Intenção de Consumo das Famílias (ICF) de Santa Catarina recuou pelo quarto mês consecutivo em junho. O índice chegou a 104,7 pontos, queda de 3,2% em relação a maio e de 6,8% na comparação com junho de 2025.
O resultado catarinense também ficou abaixo do indicador nacional, que estava em 105,5 pontos. O movimento sugere maior prudência das famílias diante das condições financeiras.
Na avaliação da Fecomércio SC, o endividamento elevado, a inadimplência acima da média histórica estadual e os juros ainda altos contribuem para limitar novas decisões de consumo. Esse comportamento pode ser percebido na prática quando a família adia a troca do carro, reduz compras parceladas, evita assumir uma nova prestação ou corta despesas que não considera essenciais.
Por que o dinheiro parece acabar mais rápido?
A resposta também está na forma como cada família sente a inflação. O IPCA é o indicador oficial utilizado para medir a inflação brasileira. Mas ele representa uma média de preços de diferentes produtos e serviços. Isso não significa que o custo de vida de todas as famílias aumente exatamente no mesmo percentual.
Para quem concentra grande parte da renda em supermercado, energia elétrica, gás, transporte e moradia, a variação desses itens tem impacto muito maior que uma redução de preço em produtos comprados eventualmente.
Por isso, a chamada “inflação sentida” pode ser diferente da inflação oficial. Não se trata de um índice alternativo. É uma consequência da composição particular do orçamento de cada residência.
Quanto menor for a renda disponível, maior tende a ser o impacto de qualquer aumento nas despesas essenciais.
Dívida pode ser saudável; problema está no comprometimento da renda
Também é importante diferenciar endividamento de inadimplência. Uma família que financia um automóvel e paga as prestações regularmente está endividada, mas não inadimplente.
O mesmo ocorre com quem utiliza o cartão e paga a fatura dentro do prazo. Por isso, os 76,9% de endividamento em Santa Catarina não significam que três em cada quatro famílias estejam sem conseguir pagar as contas.
O sinal de atenção aparece na combinação dos indicadores. Além de quase 77% das famílias terem dívidas, 23,6% registram contas atrasadas e 9,5% afirmam não ter condições de quitá-las.
O tempo médio de atraso das dívidas chegou a 62,6 dias em julho.
Cenário catarinense exige atenção no segundo semestre
Santa Catarina começa esta segunda metade de 2026 em situação mais favorável que a média brasileira em diferentes indicadores. A inadimplência estadual está abaixo da nacional. O Estado também mantém um mercado de trabalho aquecido.
Por outro lado, o avanço do endividamento mostra que as famílias continuam recorrendo ao crédito e carregando compromissos financeiros para os meses seguintes. O endividamento catarinense passou de 76,3% em junho para 76,9% em julho. A comparação com períodos anteriores também aponta crescimento.
O desafio do segundo semestre, portanto, não está apenas em gerar emprego ou aumentar nominalmente a renda. Está também em quanto desse dinheiro efetivamente permanece disponível depois das contas.
Com quase 30% da renda comprometida por dívidas, juros ainda elevados e intenção de consumo em queda, parte das famílias catarinenses tende a continuar fazendo escolhas mais cautelosas. É nesse ponto que os números encontram uma percepção conhecida dentro de casa: o salário entra, as contas vencem e a margem para consumir diminui.
Santa Catarina está em situação melhor que a média brasileira, mas isso não significa, necessariamente, dinheiro sobrando no bolso.


