Um leão-marinho foi flagrado descansando sobre as pedras dos Molhes da Barra, em Laguna, no Sul de Santa Catarina. A presença do mamífero marinho chama a atenção pela proximidade com uma área frequentada por moradores, pescadores e turistas, mas faz parte de um fenômeno natural conhecido no Litoral catarinense. Esses animais percorrem grandes distâncias pelo Oceano Atlântico e costumam aparecer com maior frequência no Sul do Brasil durante o inverno e a primavera, utilizando praias e formações rochosas como pontos de descanso.
O registro em Laguna ocorre justamente em outubro, mês que integra o período de maior presença sazonal desses mamíferos na costa sul-brasileira.
Embora permaneçam boa parte do tempo no oceano, os leões-marinhos precisam sair da água para descansar, regular a temperatura corporal e recuperar energia. A permanência sobre as pedras, portanto, é um comportamento natural e não significa, necessariamente, que o animal esteja ferido ou doente.
De onde vêm os leões-marinhos que aparecem em Santa Catarina?
As viagens estão relacionadas à disponibilidade de alimentos e às condições ambientais. Entre suas presas estão peixes e cefalópodes, como lulas. Os animais podem permanecer durante algum tempo em áreas favoráveis e, posteriormente, retornar a outras regiões de alimentação ou às colônias reprodutivas.
Não é possível estabelecer a origem exata do indivíduo observado em Laguna sem acompanhamento científico, identificação individual ou informações de rastreamento. Entretanto, estudos indicam que muitos leões-marinhos encontrados no Sul do Brasil pertencem a populações reprodutivas do Uruguai.
Quanto conseguem nadar esses mamíferos?
A capacidade de deslocamento dos leões-marinhos impressiona. Pesquisas científicas com indivíduos da espécie registraram viagens de alimentação que ultrapassaram 800 quilômetros.
Um estudo publicado no Journal of Zoology, com monitoramento de animais na plataforma continental da Patagônia, identificou percursos médios de aproximadamente 206 quilômetros por viagem em um conjunto de indivíduos monitorados, com deslocamento máximo registrado de 864 quilômetros.
Entre os machos estudados, a distância média percorrida em viagens de alimentação superou 590 quilômetros. Esses números não representam uma distância diária fixa, mas demonstram a capacidade da espécie de percorrer centenas de quilômetros pelo oceano.
Inverno e Primavera concentram maior presença no Litoral
A presença desses animais no litoral brasileiro apresenta variações ao longo do ano. De maneira geral, os registros de leões-marinhos aumentam durante o inverno e a primavera, especialmente entre os meses de junho e novembro. Outubro, portanto, está dentro da temporada de maior ocorrência no Sul do país.
Uma pesquisa sobre áreas de descanso no Rio Grande do Sul, publicada na revista Brazilian Journal of Biology, identificou picos de ocupação em agosto, na Ilha dos Lobos, em Torres, e em outubro, no Molhe Leste, em São José do Norte. Esses dados ajudam a explicar a sazonalidade observada no litoral sul-brasileiro, embora não representem uma contagem específica das ocorrências em Laguna.
Na região de Laguna, os molhes oferecem superfícies onde os animais podem permanecer fora da água, descansar e posteriormente retornar ao oceano.
A quantidade de ocorrências varia conforme fatores como temperatura, disponibilidade de alimento, correntes marítimas e condições do mar.
Udesc Laguna participa de projeto de proteção e monitoramento da fauna marinha
A presença desses mamíferos no litoral catarinense também é acompanhada por instituições científicas. Em Laguna, o Centro de Educação Superior da Região Sul (Ceres), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), participa do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS).
A iniciativa é executada como condicionante do licenciamento ambiental federal das atividades de produção e escoamento de petróleo e gás natural da Petrobras, sob acompanhamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Na região de Laguna, os trabalhos são desenvolvidos pela Udesc em parceria com a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), responsável pela coordenação técnica das atividades na área de Santa Catarina e Paraná.
O projeto realiza monitoramento diário de trechos do litoral, atendimento de animais encontrados debilitados, estabilização veterinária, necropsias e pesquisas científicas. As atividades incluem mamíferos marinhos, tartarugas e aves.
Em agosto de 2025, o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos completou dez anos de atuação.
Segundo balanço divulgado pela Udesc em setembro daquele ano, mais de 13 mil animais haviam sido recolhidos pelas equipes ao longo da década, que também percorreram mais de 547,5 mil quilômetros em atividades de monitoramento.
O professor Pedro Volkmer de Castilho, coordenador do PMP-BS na Udesc Laguna, destacou a importância das informações produzidas para o conhecimento da biodiversidade brasileira.
“O PMP tem trazido um resultado fantástico do ponto de vista do conhecimento sobre a fauna e a biodiversidade brasileira, especialmente, porque um dos aspectos que o projeto define é que esses dados precisam ser públicos”,
afirmou o pesquisador.
As informações coletadas ajudam a identificar padrões de ocorrência, mortalidade, distribuição das espécies e possíveis ameaças aos animais marinhos.
Os dados também contribuem para compreender melhor a presença de mamíferos como o leão-marinho no litoral de Santa Catarina.
A orientação dos especialistas é permitir que o animal descanse tranquilamente. Um leão-marinho aparentemente imóvel sobre as pedras ou na areia pode estar apenas recuperando energia depois de uma viagem pelo oceano.
A população deve evitar aproximações, tentativas de tocar no animal, oferta de alimentos ou ações para obrigá-lo a retornar à água. Também é importante manter cães e outros animais domésticos afastados. Apesar da aparência tranquila, leões-marinhos são animais selvagens, fortes e capazes de reagir quando se sentem ameaçados.
Caso apresentem ferimentos, sinais evidentes de debilidade ou estejam em situação de risco, o recomendado é entrar em contato com as equipes especializadas. O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos disponibiliza o telefone 0800 642 3341 para comunicação de ocorrências envolvendo animais marinhos.
A presença do leão-marinho nos Molhes da Barra reforça a importância ambiental do litoral de Laguna, região que reúne praias, dunas, lagoas, áreas de pesca e ambientes utilizados por diferentes espécies marinhas. A cena também evidencia a necessidade de convivência responsável entre a população e a fauna silvestre.
O mesmo espaço frequentado por pescadores, esportistas e turistas pode servir como abrigo temporário para um animal que percorreu centenas de quilômetros pelo oceano.
A permanência sobre as pedras representa uma pausa natural em seus deslocamentos. Depois de descansar, o leão-marinho poderá retornar ao mar e continuar sua jornada pelo Atlântico Sul.
Para quem tiver a oportunidade de observar a cena, a melhor atitude é apreciar à distância, registrar o momento sem interferir no comportamento do animal e contribuir para sua preservação.


