Vinícola de São Joaquim envelhece vinho no fundo do mar e é pioneira na prática no Brasil

Uma técnica pouco comum no universo da vitivinicultura colocou uma vinícola da Serra Catarinense em evidência no mercado nacional. A Vinícola Fama, de São Joaquim, tornou-se pioneira no Brasil a comercializar vinhos envelhecidos no fundo do mar, onde as garrafas permanecem submersas por até 24 meses antes de chegarem ao consumidor.

Enquanto o envelhecimento em barricas de carvalho ou em garrafa faz parte da tradição da produção de vinhos, a proposta da Fama aposta nas condições naturais do oceano para acelerar e modificar a evolução da bebida. O resultado são rótulos exclusivos que chegam ao mercado cobertos por cracas, conchas e pequenos corais, marcas naturais do período de submersão.

Envelhecimento em condições naturais

A enóloga Thaís Ribeiro, responsável pela produção e pelo receptivo da vinícola, explica que as garrafas são acondicionadas em gaiolas metálicas e levadas ao fundo do mar catarinense, onde permanecem por 12 ou 24 meses.

Segundo ela, o ambiente reúne características consideradas ideais para a evolução do vinho, como temperatura constante em torno de 5°C, baixa luminosidade, baixa concentração de oxigênio e pressão superior à encontrada na superfície.

“O principal intuito é deixar esse vinho no fundo do mar com essa temperatura constante, com baixa luminosidade, baixa concentração de oxigênio e uma pressão diferente, para que esse vinho esteja pronto mais cedo”, explica.

Ao serem retiradas do mar, as garrafas apresentam uma característica impossível de reproduzir artificialmente.

“A gente não consegue repetir, porque depende da posição que ela ficou dentro da gaiola. Cada garrafa é diferente”, afirma Thaís.

Além da exclusividade proporcionada pela natureza, cada unidade é comercializada em uma embalagem produzida com madeira reaproveitada da Ponte Hercílio Luz, um dos principais cartões-postais de Santa Catarina.

Produção limitada

A linha Fundo do Mar é composta por três rótulos: um Sauvignon Blanc, um espumante rosé e um vinho tinto, este último envelhecido por 24 meses no oceano.

A produção é restrita, com aproximadamente 300 garrafas por safra, característica que reforça o posicionamento da vinícola voltado para produtos exclusivos e de pequena escala.

Uma vinícola jovem com raízes antigas

Embora a Vinícola Fama tenha sido inaugurada recentemente, sua história começou antes mesmo da criação da marca.

As primeiras mudas de Cabernet Sauvignon e Merlot foram plantadas na propriedade em 2003. Em 2021, os empresários Fabiano e Maristane adquiriram a área e iniciaram o projeto que deu origem à vinícola. O nome Fama é formado pelas iniciais do casal.

Desde então, o vinhedo passou por um processo de reenxertia, técnica que preserva o sistema radicular das plantas e substitui apenas a copa da videira, permitindo introduzir novas variedades em menos tempo.

Hoje, a vinícola cultiva sete variedades, entre elas Cabernet Franc, Petit Verdot, Sauvignon Blanc, Alicante Bouschet, Ribolla Gialla e Sagrantino di Montefalco, além de outras em fase de testes.

Premiações em pouco tempo

Mesmo com poucas safras comercializadas, a Fama já conquistou reconhecimento em concursos especializados.

Entre as premiações estão medalhas de ouro na Grande Prova Vinhos do Brasil, com destaque para o Cabernet Franc e o espumante Naturi, além de reconhecimento da revista Dega para o blend de quatro variedades e espumantes elaborados pelo método champenoise sur lie.

“Trazer essas premiações para os rótulos em tão pouco tempo é um sentimento de que estamos no caminho certo. Não gostamos dos vinhos só porque são nossos, eles realmente têm qualidade”, destaca Thaís.

O espumante que forma uma “nuvem” na garrafa

Outro diferencial da vinícola é o espumante produzido pelo método sur lie.

Nesse estilo, o vinho permanece em contato com as leveduras após a fermentação, sem passar por filtragem. Ao movimentar a garrafa contra a luz, forma-se uma espécie de nuvem em seu interior.

Segundo a enóloga, trata-se das leveduras rompendo a parede celular e liberando compostos que proporcionam maior cremosidade, textura e volume ao espumante.

“É completamente diferente do espumante filtrado”, resume.

“O vinho está vivo”

Para Thaís Ribeiro, uma das maiores curiosidades do universo do vinho é justamente sua constante evolução.

Ela explica que uma mesma safra nunca será exatamente igual à anterior, já que fatores climáticos influenciam diretamente o resultado final da bebida.

“Cada safra é completamente única. O clima é diferente, por mais que a gente siga a mesma receita.”

A enóloga também destaca que o vinho continua evoluindo mesmo depois de engarrafado.

“Você pode tomar a mesma garrafa, a mesma safra, o mesmo lote, em momentos diferentes, e é completamente diferente. O vinho é como ler um livro: se você ler hoje, daqui a um mês, daqui a dez anos, é completamente diferente. Porque ele está vivo.”

Atualmente, a Vinícola Fama produz 13 rótulos entre vinhos tranquilos, espumantes, rosés e a linha Fundo do Mar. Somadas as três safras disponíveis, a produção não ultrapassa cinco mil garrafas, reforçando a proposta da empresa de investir em vinhos de altitude de alta qualidade e baixa escala.

Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.

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