Santa Catarina e os novos caminhos da inovação global

(*) Por Valter Alves Schmitz Neto — Presidente da Fundação InoversaSul

O desenvolvimento de uma região não pode mais ser pensado exclusivamente a partir de suas fronteiras geográficas. Em um mundo marcado por transformações tecnológicas, econômicas e sociais cada vez mais aceleradas, a capacidade de estabelecer conexões internacionais tornou-se um fator estratégico para a competitividade das empresas, o fortalecimento das instituições e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

É com essa compreensão que participo, a convite da Associação Empresarial de Tubarão (ACIT), da Missão China, uma iniciativa que reúne empresários e lideranças de diferentes regiões de Santa Catarina, com programação em Israel, Hong Kong e China.

Mais do que conhecer mercados e tecnologias, essa experiência representa uma oportunidade de aproximar o potencial empreendedor catarinense dos principais movimentos internacionais de inovação.

Tenho a convicção de que liderar transformações significa estimular o protagonismo do inédito. Significa questionar modelos tradicionais, reconhecer novas possibilidades e buscar soluções capazes de responder aos desafios contemporâneos.

A inovação exige abertura ao conhecimento, disposição para aprender e coragem institucional para transformar ideias em projetos concretos.

O conhecimento não reconhece fronteiras

Santa Catarina construiu uma trajetória econômica marcada pela diversificação produtiva, pelo empreendedorismo e pela capacidade de suas comunidades de organizar iniciativas de desenvolvimento.

Entretanto, preservar essa capacidade de crescimento exige compreender que o futuro das economias regionais estará cada vez mais associado à circulação internacional de conhecimentos, tecnologias e oportunidades.

Missões empresariais e institucionais cumprem papel relevante nesse processo. Permitem conhecer experiências, estabelecer relacionamentos e identificar soluções que, devidamente avaliadas e adaptadas, podem contribuir para diferentes setores da economia e da sociedade.

Em Israel, tivemos a oportunidade de conhecer experiências relacionadas à inovação e à articulação entre conhecimento científico, empreendedorismo e desenvolvimento tecnológico.

Também buscamos referências em turismo religioso, inovação agropecuária e modelos institucionais que possam contribuir para iniciativas catarinenses de planejamento, gestão e desenvolvimento regional.

São experiências que despertam possibilidades para áreas como turismo integrado, saneamento, planejamento urbano e estímulo à criação de novos empreendimentos.

Na China, a programação contempla a Feira de Cantão, além de contatos com empresas e ambientes tecnológicos que desenvolvem soluções com potencial para transformar processos produtivos, serviços e atividades cotidianas.

O objetivo não é simplesmente observar o que outros países realizam. É compreender como diferentes experiências podem inspirar soluções adequadas às necessidades de nossas comunidades.

A educação como prioridade estratégica

Entre os objetivos institucionais que me levaram a integrar essa missão, atribuo especial importância à inovação educacional.

A inteligência artificial e outras tecnologias emergentes apresentam possibilidades de transformação dos ambientes de aprendizagem. Entretanto, sua contribuição dependerá da capacidade das instituições de integrar recursos tecnológicos, conhecimento pedagógico e acompanhamento humano.

Na China, programei contatos com empresas como Seewo (CVTE), MAXHUB, UBTECH Robotics, Makeblock e Leaderhub, que desenvolvem soluções aplicadas à educação.

A partir dessas experiências, pretendo avaliar a viabilidade de implantar, experimentalmente, em 2027, três ambientes de aprendizagem apoiados por novas tecnologias: dois no Colégio Dehon, em Tubarão, e um na rede pública de ensino, mediante parceria institucional a ser construída.

A proposta é investigar ferramentas capazes de auxiliar professores e equipes multidisciplinares na compreensão das dificuldades de aprendizagem, no acompanhamento pedagógico e na ampliação das condições de acessibilidade e inclusão.

Imagino ambientes educacionais nos quais a tecnologia possa oferecer informações complementares ao trabalho dos educadores, contribuindo para reconhecer necessidades individuais e desenvolver estratégias de ensino mais adequadas.

Naturalmente, qualquer iniciativa dessa natureza exigirá estudos, validação pedagógica, critérios éticos e proteção à privacidade dos estudantes.

A tecnologia não deve substituir o professor, mas ampliar suas possibilidades de atuação. A inteligência artificial somente produzirá avanços educacionais consistentes quando estiver a serviço do conhecimento, da sensibilidade humana e de metodologias de ensino bem estruturadas.

Inovação como instrumento de desenvolvimento regional

Outra dimensão importante dessa experiência está relacionada ao fortalecimento dos ambientes de inovação catarinenses.

Na Fundação InoversaSul, buscamos ampliar as conexões do Sigma Park, Centro de Inovação de Tubarão, com empresas, universidades, pesquisadores, startups e instituições nacionais e internacionais.

A aproximação com ecossistemas de outros países pode estimular projetos conjuntos, intercâmbios técnicos, novas iniciativas empresariais e soluções para desafios que também fazem parte da realidade catarinense.

Esse movimento precisa ultrapassar os limites de uma instituição ou município.

Quando empresários da Serra Catarinense, do Sul do Estado e da Grande Florianópolis compartilham uma agenda internacional, criam-se oportunidades para fortalecer relações regionais e ampliar a cooperação entre diferentes setores produtivos.

A participação da ACIT nessa articulação demonstra a importância do associativismo empresarial como instrumento de aproximação entre empresas, instituições e mercados.

Acredito que Santa Catarina possui condições de ampliar sua presença nas redes internacionais de conhecimento e inovação. Para isso, precisamos estimular iniciativas integradas, valorizar a cooperação institucional e transformar oportunidades em projetos capazes de gerar resultados para a sociedade.

Transformar experiências globais em resultados locais

Existe uma diferença fundamental entre conhecer experiências inovadoras e produzir inovação.

A primeira etapa depende da disposição para observar, aprender e estabelecer relacionamentos. A segunda exige planejamento, capacidade de adaptação, investimento, cooperação e compromisso com resultados.

É justamente nessa passagem do conhecimento para a ação que reside o verdadeiro significado das missões internacionais.

Não precisamos reproduzir modelos estrangeiros de maneira automática. Precisamos compreender seus fundamentos, avaliar sua aplicabilidade e construir soluções próprias, respeitando as características econômicas, culturais e sociais de nossas regiões.

Para a Fundação InoversaSul, essa missão representa mais uma oportunidade de modernização institucional, com perspectivas de aplicação na educação, no fortalecimento do Sigma Park e em projetos de desenvolvimento regional.

Mas sua importância é mais abrangente.

A integração global do conhecimento deve produzir oportunidades locais de desenvolvimento.

Esse princípio precisa orientar lideranças empresariais, educacionais, científicas e públicas comprometidas com o futuro de Santa Catarina.

Nosso desafio é transformar conexões internacionais em cooperação efetiva, conhecimento em capacidade de inovação e oportunidades em benefícios duradouros para a sociedade.

Afinal, o desenvolvimento não acontece apenas quando novas tecnologias chegam às nossas instituições. Ele se concretiza quando somos capazes de transformar conhecimento em soluções, ampliar oportunidades e melhorar a vida das pessoas.

O futuro de Santa Catarina também será construído pela capacidade de conectar sua inteligência, seu empreendedorismo e suas instituições ao conhecimento produzido em diferentes partes do mundo.

(*) Valter Alves Schmitz Neto
Presidente da Fundação InoversaSul

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