Bairros planejados ganham espaço e mudam a lógica do mercado imobiliário no Brasil

Metragem, número de quartos e estrutura do condomínio já não concentram sozinhos a atenção de quem procura um imóvel. Uma nova geração de projetos imobiliários aposta no próprio bairro como diferencial, reunindo moradia, comércio, serviços, trabalho, lazer e áreas verdes em distâncias menores.

O movimento dos bairros planejados no Brasil ganhou velocidade nos últimos anos. Levantamento da Idealiza Cidades aponta ao menos 52 projetos privados lançados no país desde 2010. Entre 2020 e 2025, foram 29 novos bairros, com média próxima de cinco lançamentos por ano.

Santa Catarina participa dessa transformação. A Cidade Pedra Branca, em Palhoça, lançada em 1999, aparece entre os exemplos nacionais de integração entre diferentes usos dentro de um mesmo território.

Mercado passa a vender localização, serviços e tempo

Durante décadas, diferentes modelos dominaram os lançamentos residenciais.

Nos anos 1990, condomínios horizontais fechados ganharam força com a promessa de privacidade e segurança. Depois, os chamados condomínios-clube ampliaram estruturas internas com piscinas, academias, salões e diferentes opções de lazer.

A tendência atual desloca parte dessa experiência para fora dos muros.

Em vez de oferecer todas as atividades exclusivamente dentro do condomínio, os bairros planejados procuram aproximar residências de supermercados, restaurantes, escolas, escritórios, áreas verdes e outros serviços.

A mudança também altera a percepção sobre localização.

Não basta estar em uma região considerada valorizada. O tempo necessário para realizar as atividades cotidianas passa a integrar a equação.

Quanto mais necessidades podem ser atendidas próximas de casa, menor tende a ser a dependência de deslocamentos longos.

Bairros planejados aceleram no Brasil

Os números apresentados pela Idealiza Cidades indicam crescimento desse modelo.

A média, que era de aproximadamente um bairro planejado privado lançado por ano na década de 2000, chegou a cerca de cinco por ano entre 2020 e 2025.

Somente nesse último período, 29 projetos foram lançados.

A expansão acompanha tendências observadas internacionalmente.

O Emerging Trends in Real Estate Global Outlook 2025, da Urban Land Institute (ULI) em parceria com a PwC, aponta maior atenção dos investidores a projetos capazes de acompanhar mudanças demográficas, econômicas e nas formas de trabalhar e morar.

Outro estudo, o Global Business Districts Attractiveness Report 2025, elaborado pela EY em parceria com a ULI, indica maior atratividade de distritos que combinam atividades residenciais e comerciais com espaços públicos qualificados.

O trabalho híbrido é um dos fatores que ajudam a explicar essa transformação. Se parte das atividades profissionais pode ser realizada fora dos escritórios tradicionais, morar próximo de serviços e espaços de convivência ganha uma nova dimensão.

Pedra Branca coloca Santa Catarina nesse movimento

Em Santa Catarina, um dos exemplos mais conhecidos está em Palhoça, na Grande Florianópolis.

Lançada em 1999, a Cidade Pedra Branca desenvolveu uma proposta que combina residências, comércio, serviços e espaços públicos.

O projeto antecedeu parte da aceleração recente dos bairros planejados no país e tornou-se uma das referências citadas nesse segmento.

Outros exemplos brasileiros incluem a Reserva do Paiva, em Pernambuco, lançada em 2007, e projetos mais recentes em São Paulo e Paraná.

Entre eles está o Parque Una, em São José dos Campos, que segue em desenvolvimento, e o PARC Autódromo, lançado em 2024 em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.

Na capital paulista, a Cidade Center Norte anunciou um plano de transformação urbana com previsão de R$ 2 bilhões em investimentos para ampliar o complexo e desenvolver um bairro de uso misto.

Cidade de 15 minutos influencia novos projetos

Parte dessa transformação está relacionada ao conceito conhecido como “cidade de 15 minutos”.

A proposta urbanística busca aproximar da residência atividades essenciais do cotidiano, permitindo que parte delas possa ser alcançada a pé, de bicicleta ou por deslocamentos mais curtos.

Isso inclui comércio, serviços, trabalho, educação e lazer.

A aplicação varia conforme cada projeto e cidade. O princípio central, porém, é reduzir a necessidade de grandes deslocamentos para atividades rotineiras.

Caminhabilidade, áreas verdes, conexão com o transporte e qualidade dos espaços públicos passam, portanto, a integrar a estratégia dos empreendimentos.

Ruas e calçadas também entram no projeto imobiliário

Essa mudança faz com que incorporadoras e urbanizadoras precisem olhar além das residências.

Ruas, praças, calçadas, paisagismo e relação entre espaços públicos e privados passam a influenciar a experiência do morador.

No PARC Autódromo, por exemplo, o projeto utiliza o conceito de “calçadas vivas”, buscando reduzir barreiras entre residências e ruas e estimular circulação e convivência.

Projetado pela Jaime Lerner Arquitetos Associados, o empreendimento recebeu certificação LEED for Communities. A avaliação considera aspectos relacionados à sustentabilidade urbana, incluindo mobilidade, eficiência energética, resíduos e qualidade de vida.

Para Fernando Bau, CEO da BairrU Urbanismo, o movimento representa uma mudança na forma como o setor pensa seus produtos.

“As pessoas não querem passar a vida dentro dos muros do empreendimento. Elas buscam bairros onde seja possível caminhar, encontrar serviços, trabalhar, estudar, consumir e conviver no espaço público”,

afirma.

Tempo pode se tornar um dos principais ativos do imóvel

A transformação também ajuda a explicar por que o valor percebido de um imóvel começa antes da porta de entrada.

Uma academia dentro do condomínio pode continuar relevante. Mas poder chegar ao mercado, à escola, ao restaurante ou a uma área verde sem enfrentar um longo trajeto também passa a pesar na decisão.

Nesse cenário, o tempo economizado ganha valor econômico e qualidade de vida.

Para incorporadoras, isso amplia a complexidade dos projetos. O sucesso deixa de depender apenas da qualidade das unidades residenciais e passa a envolver planejamento urbano, diversidade de usos e desenvolvimento de longo prazo.

Para compradores, o desafio também muda.

Antes de avaliar somente metragem, preço e estrutura interna, torna-se relevante observar como aquele empreendimento se conecta ao restante da cidade.

O que observar em um bairro planejado?

Antes da compra de um imóvel, alguns aspectos ajudam a avaliar se a proposta funciona além do material publicitário:

  • distância real até comércio, escolas e serviços;
  • facilidade para caminhar e pedalar;
  • acesso ao transporte e às principais vias;
  • existência e qualidade das áreas verdes;
  • diversidade entre usos residenciais e comerciais;
  • infraestrutura já entregue e aquilo que ainda está apenas projetado;
  • planejamento para o crescimento do bairro;
  • manutenção dos espaços públicos e privados.

A expansão dos bairros planejados mostra que o mercado imobiliário começa a disputar algo maior do que metros quadrados.

O imóvel continua sendo parte central da compra. Mas o entorno, a mobilidade e, principalmente, o tempo necessário para viver a rotina passam a compor de maneira cada vez mais relevante o valor dessa escolha.

Notícias relacionadas

- Publicidade -spot_img

Últimas