Os cabos clandestinos e excedentes que ocupam postes de energia em cidades brasileiras deixaram de representar apenas um problema de segurança e poluição visual para se tornarem matéria-prima de um projeto de economia circular desenvolvido em Santa Catarina. A iniciativa da Celesc já retirou aproximadamente 75 toneladas de fios de telefonia irregulares, destinando todo o material para reciclagem e reaproveitamento industrial.
O modelo, considerado referência no setor elétrico, combina limpeza da infraestrutura urbana, geração de renda para cooperativas de reciclagem e fornecimento de insumos para a indústria siderúrgica.

Limpeza dos postes gera oportunidade de trabalho
O processo começa durante as operações de fiscalização e retirada de cabos instalados de forma irregular ou abandonados nos postes compartilhados entre distribuidoras de energia e empresas de telecomunicações.
Em vez de seguir para descarte, os materiais são encaminhados para cooperativas de reciclagem, como a Reciclavale, em Itajaí.
Na cooperativa, os cabos são separados manualmente e preparados para a etapa industrial seguinte.
Segundo a presidente e fundadora da Reciclavale, Marli das Dores Martins, o material representa uma importante fonte de renda para dezenas de famílias.
Além da reciclagem dos cabos, a cooperativa também recupera móveis descartados pela Celesc, que posteriormente são destinados a entidades assistenciais e famílias em situação de vulnerabilidade.
Indústria reaproveita metais

Após a triagem, os resíduos seguem para uma empresa especializada em reciclagem industrial, instalada em Tijucas.
No local, equipamentos realizam a separação entre plástico, borracha e componentes metálicos, permitindo que cobre, alumínio e outros materiais retornem ao ciclo produtivo.
De acordo com a administradora da empresa Soffer Sucatas, Katrini Vicente Ventura, o processo transforma um resíduo urbano em matéria-prima com qualidade suficiente para abastecer o setor siderúrgico.
Depois da classificação, os metais seguem para fornos elétricos de uma indústria metalúrgica, onde são fundidos e convertidos em novos produtos, como vergalhões, perfis metálicos, chapas e arames utilizados pela construção civil e pela indústria.
Economia circular

A iniciativa atende às diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que incentiva a reutilização e a reciclagem de materiais, reduzindo o envio de resíduos para aterros sanitários.
Além dos ganhos ambientais, o modelo também gera impacto econômico ao criar oportunidades de trabalho em diferentes etapas da cadeia produtiva.
Segundo a Celesc, o projeto demonstra que a retirada de cabos irregulares pode produzir benefícios que vão além da organização urbana, fortalecendo cooperativas de reciclagem e reduzindo a necessidade de extração de novas matérias-primas.
Modelo pode inspirar outras distribuidoras
Para o gerente de Telecomunicações da Celesc, Eduardo Marcussi, a iniciativa apresenta uma solução para um problema comum em diversas cidades brasileiras.
Segundo ele, além de melhorar a segurança da população e reduzir a poluição visual, o projeto cria um ciclo sustentável ao destinar os materiais para reciclagem em vez de descartá-los.
A experiência catarinense acompanha uma tendência observada em outras concessionárias de energia do país, que também ampliam investimentos em logística reversa e reaproveitamento de equipamentos para reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência operacional.


