A consolidação das usinas de Pecém I e II, no Ceará, e do Complexo Jorge Lacerda, em Santa Catarina, sob o controle da Diamante Energia coloca em evidência uma transformação maior do setor elétrico brasileiro. Enquanto fontes solar e eólica avançam rapidamente, o país precisa combinar diferentes formas de geração para garantir energia disponível em diferentes horários e condições climáticas.
Com a aquisição de Pecém II, a Diamante Energia passou de 1,46 GW para aproximadamente 1,82 GW de capacidade instalada. Desse total, 1.085 MW estão concentrados no Ceará e outros 740 MW no Complexo Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo, no Sul catarinense.
Mais do que uma expansão empresarial, os números ajudam a dimensionar o papel das termelétricas dentro de um sistema que passa por rápida diversificação.
Pecém tem peso significativo na geração do Ceará

No Ceará, o tamanho da operação é expressivo. Pecém I possui 720 MW de capacidade instalada. Pecém II acrescenta outros 365 MW, elevando o conjunto para 1.085 MW.
Segundo informações institucionais da operação, o complexo formado pelas unidades de Pecém representa mais da metade da capacidade de geração elétrica do Ceará. Pecém I, isoladamente, tem capacidade anual de geração de até 5.500 GWh.
A importância, porém, não deve ser medida apenas pela quantidade de energia efetivamente produzida durante o ano.
O Ceará tornou-se uma das referências brasileiras na expansão das fontes renováveis, especialmente eólica e solar. Essas fontes têm a vantagem de produzir eletricidade sem a necessidade de queima de combustíveis durante a geração, mas apresentam uma característica operacional importante: sua disponibilidade depende das condições naturais.
O vento muda de intensidade. A geração solar desaparece durante a noite e varia com nebulosidade e horário. A produção hidrelétrica, por sua vez, depende também das condições hidrológicas.
É nesse cenário que entram fontes capazes de gerar energia quando acionadas pelo sistema.
Pecém I, por exemplo, foi novamente contratado no Leilão de Reserva de Capacidade de 2026, garantindo disponibilidade de potência ao Sistema Interligado Nacional. A contratação prevê a continuidade da unidade até 2037.
Em Santa Catarina, Jorge Lacerda cumpre papel semelhante
A cerca de 3,5 mil quilômetros do Ceará, Santa Catarina apresenta outra configuração energética.
Em Capivari de Baixo, no Sul do estado, o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda reúne 740 MW de capacidade instalada, distribuídos em sete unidades geradoras.
Além de sua participação no sistema elétrico, Jorge Lacerda está associado a uma cadeia econômica regional que envolve a mineração do carvão, transporte, fornecedores, trabalhadores e municípios carboníferos.
Por isso, seu impacto em Santa Catarina vai além dos megawatts produzidos.
A operação sustenta uma cadeia industrial construída durante décadas no Sul catarinense e, ao mesmo tempo, oferece ao sistema uma fonte de geração controlável, que não depende diretamente da disponibilidade instantânea de sol, vento ou chuva.
Isso não elimina o debate ambiental em torno do carvão. Ao contrário: o desafio passa justamente por conciliar confiabilidade do sistema, custo da energia e redução das emissões durante a transição energética.
Brasil está mudando rapidamente sua matriz elétrica
O pano de fundo dessa discussão é a transformação da matriz brasileira.
Dados do planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostram que o Sistema Interligado Nacional tinha cerca de 232 GW de capacidade instalada no final de 2024.
As hidrelétricas respondiam por 43,5%. A geração eólica representava 14%, enquanto a solar centralizada chegava a 7,1%. Outros 15,1% estavam na micro e minigeração distribuída, composta predominantemente por sistemas fotovoltaicos.
As térmicas representavam 10,2% da capacidade considerada pelo planejamento.
A tendência é de uma participação ainda maior da geração solar.
Para 2029, o ONS projeta que a micro e minigeração distribuída poderá alcançar 23,9% da capacidade instalada, enquanto a solar centralizada deverá atingir 9%. Somadas, essas duas categorias chegarão perto de um terço da capacidade instalada nacional.
Isso muda a forma de operar o sistema elétrico.
Diversificação reduz dependência de uma única fonte
Durante décadas, o Brasil construiu seu sistema elétrico principalmente em torno das grandes hidrelétricas. A expansão das fontes eólica, solar, biomassa e geração distribuída alterou esse desenho.
Essa diversidade oferece uma vantagem importante: as fontes não produzem necessariamente mais energia nos mesmos períodos.
Estudos do ONS mostram, por exemplo, uma complementaridade sazonal entre geração hidráulica, eólica, solar e biomassa. Em determinados períodos de menor disponibilidade hídrica, outras fontes podem aumentar sua contribuição.
A própria dimensão continental do Brasil amplia essa possibilidade.
Pode faltar vento em uma região enquanto outra registra produção elevada. O Nordeste pode exportar eletricidade em determinados momentos, enquanto hidrelétricas de outras regiões atendem o sistema em outros períodos.
É por isso que a segurança energética não depende somente da construção de novas usinas.
Depende também de transmissão, armazenamento, capacidade de resposta e diversidade de fontes.
O ONS destaca que as grandes interligações entre as regiões permitem transferir eletricidade entre os subsistemas e aproveitar justamente essa complementaridade ao longo do território nacional.
Mais solar e eólica aumentam necessidade de flexibilidade
O crescimento das renováveis variáveis cria um novo desafio.
Durante períodos de forte incidência solar, por exemplo, milhões de painéis podem produzir grandes quantidades de eletricidade simultaneamente. Quando o sol desaparece no final do dia, essa produção diminui rapidamente, enquanto o consumo pode continuar elevado.
Nesse intervalo, outra fonte precisa assumir a geração.
Hidrelétricas com reservatórios podem exercer parte dessa função. Sistemas de armazenamento, baterias e intercâmbios entre regiões também ganham importância. Termelétricas representam outra parcela dessa capacidade disponível.
O próprio planejamento do sistema brasileiro mostra a dimensão da mudança. O ONS estima que eólicas e solares centralizadas representem aproximadamente 22% da capacidade instalada do SIN, enquanto a micro e minigeração distribuída já corresponde a outros 18,5%.
Portanto, discutir segurança energética deixou de significar escolher uma fonte em detrimento de todas as demais.
O desafio passa a ser determinar qual combinação de fontes consegue entregar eletricidade com confiabilidade, custo adequado e menor impacto ambiental.
Pecém e Jorge Lacerda ilustram nova geografia da geração
A expansão da Diamante ajuda a visualizar essa lógica em escala nacional.
No Nordeste, Pecém I e II somam 1.085 MW, inseridos em uma região marcada pela forte expansão da energia eólica e solar.
No Sul, Jorge Lacerda mantém outros 740 MW em uma região conectada ao sistema nacional e com uma cadeia econômica historicamente ligada à geração termelétrica.
São ativos semelhantes quanto à origem térmica, mas inseridos em contextos energéticos e econômicos diferentes.
Ao mesmo tempo, o sistema brasileiro incorpora milhares de novas unidades solares, parques eólicos, hidrelétricas, biomassa e outras tecnologias.
Essa dispersão territorial e tecnológica funciona como uma espécie de portfólio energético: quanto maior a complementaridade entre as fontes, menor tende a ser a dependência de uma única condição de geração.
Isso não significa que todas tenham o mesmo custo ou impacto ambiental. Também não elimina a necessidade de reduzir emissões do setor elétrico.
Significa que a transição precisa considerar uma característica básica da eletricidade: oferta e demanda precisam permanecer equilibradas continuamente.
Nesse cenário, o peso de Pecém para o Ceará e de Jorge Lacerda para Santa Catarina não está apenas na energia que cada complexo consegue produzir. Está também na potência que pode ser colocada à disposição do sistema, enquanto o Brasil amplia fontes renováveis e busca construir uma matriz simultaneamente mais diversificada, confiável e de menor impacto ambiental.


