Duas investigações distintas da Polícia Civil de Santa Catarina colocaram em evidência nesta semana diferentes formas de violência e exploração sexual no estado. Em Lages, na Serra Catarinense, um homem de 68 anos foi preso após a localização de material de violência sexual infantojuvenil. Em Navegantes, no Litoral Norte, uma mulher foi presa preventivamente em uma investigação sobre exploração de trabalhadoras de uma casa de prostituição.
Embora não exista relação informada entre os dois casos, as operações ocorreram em um intervalo de apenas um dia e envolvem situações distintas de vulnerabilidade. Os episódios também chamam atenção para a atuação das redes de investigação e proteção no estado.
Homem é preso após operação em Lages

Na sexta-feira (11), a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente e ao Idoso (DPCAMI) de Lages cumpriu um mandado de busca e apreensão durante uma investigação relacionada a crimes contra crianças e adolescentes.
A operação contou com apoio da Polícia Científica de Santa Catarina.
Durante uma análise preliminar dos equipamentos encontrados no imóvel, peritos identificaram em um cartão de memória arquivos de vídeo com material de violência sexual infantojuvenil, segundo a Polícia Civil.
Um homem de 68 anos foi preso em flagrante. Conforme a corporação, ele é investigado, em tese, pelo armazenamento desse tipo de conteúdo, conduta prevista no artigo 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Celulares, tablet, HD, pen drives, cartões de memória, CDs e outras mídias eletrônicas também foram apreendidos.
Os equipamentos passarão por perícia aprofundada para verificar a existência de outros elementos que possam contribuir com a investigação.
A Polícia Civil não informou, no material divulgado, se foram identificadas vítimas de Lages ou de outras cidades nos arquivos encontrados.

Violência sexual contra crianças preocupa em Santa Catarina
O caso registrado na Serra ocorre em um contexto mais amplo de preocupação com a violência sexual contra crianças e adolescentes em Santa Catarina.
Levantamento divulgado em 2025 pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Santa Catarina (Cedeca/SC) apontou 2.185 registros de estupro de vulnerável no estado em 2024, número 12% superior ao registrado no ano anterior. O estudo também indicou que 67% dos casos analisados ocorreram na residência da própria vítima e que familiares ou conhecidos representavam 84,7% dos autores.
A própria estrutura estadual de saúde mantém fluxo específico para notificação e encaminhamento de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. Em Santa Catarina, situações suspeitas ou confirmadas de violência sexual são de notificação compulsória pelos serviços responsáveis.
Em Lages, a rede municipal de assistência social também atua na prevenção e no acompanhamento de crianças, adolescentes e famílias por meio de estruturas como CRAS e CREAS.
Rodovias catarinenses também estão no mapa de vulnerabilidade
Outro indicador amplia o cenário para além dos centros urbanos. O Projeto Mapear, da Polícia Rodoviária Federal, identificou 1.333 pontos considerados vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias federais de Santa Catarina.
Quase 20% desses locais foram classificados como críticos ou de alto risco. O levantamento é utilizado para direcionar ações preventivas e repressivas nas rodovias catarinenses.
Os números não significam que crimes tenham sido comprovados em todos esses locais. O mapeamento identifica ambientes com características que podem aumentar a vulnerabilidade à exploração.
Em Navegantes, investigação apura exploração de mulheres
Em outra frente e sem relação informada com o caso de Lages, a Polícia Civil cumpriu na quinta-feira (10) três mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva em Navegantes.
A investigação começou em 6 de julho e apura a atuação dos responsáveis por uma casa noturna localizada às margens da BR-470.
Segundo a Polícia Civil, os investigados são suspeitos de redução de trabalhadores à condição análoga à de escravo, manutenção de casa de prostituição e rufianismo.
Uma mulher apontada como responsável pela administração do estabelecimento foi presa preventivamente.
O companheiro dela permanecia foragido, segundo as informações divulgadas pela polícia. A corporação informou ainda que ele possui condenação de quase 24 anos de prisão por tortura, estupro e manutenção de casa de prostituição.
Dívidas de até R$ 10 mil teriam restringido saída de mulheres
A investigação aponta que mulheres que realizavam programas no estabelecimento teriam parte dos valores recebidos retida para pagamento de quartos, alimentos e bebidas.
Também seriam aplicadas multas. Conforme a Polícia Civil, as cobranças teriam levado algumas mulheres a acumular supostas dívidas de até R$ 10 mil.
Ainda de acordo com a investigação, essas dívidas eram utilizadas para impedir que elas deixassem o estabelecimento.
As mulheres encontradas no local foram encaminhadas à delegacia para prestar depoimento. A investigada presa foi levada ao sistema prisional de Itajaí e ficou à disposição da Justiça.
As suspeitas ainda são objeto de investigação e eventual responsabilização depende do andamento dos procedimentos policiais e judiciais.
Casos envolvem crimes diferentes e investigações independentes
Apesar da proximidade das operações, é importante diferenciar os dois episódios.
Em Lages, a investigação está relacionada a crimes contra crianças e adolescentes e resultou em prisão por suspeita de armazenamento de material de violência sexual infantojuvenil.
Já em Navegantes, a apuração envolve mulheres adultas que, segundo a Polícia Civil, teriam sido submetidas a um sistema de exploração econômica e restrição de liberdade dentro de um estabelecimento.
Os casos, portanto, não indicam a existência de uma mesma organização ou de ligação entre os investigados. Eles revelam diferentes frentes enfrentadas pelas autoridades catarinenses na repressão à violência e à exploração sexual.
Serviço: como denunciar
Suspeitas de violência ou exploração sexual contra crianças e adolescentes podem ser comunicadas ao Disque 100. Situações de emergência devem ser informadas às forças de segurança.
Também é possível procurar o Conselho Tutelar do município e os órgãos policiais responsáveis. Em casos envolvendo crianças e adolescentes, a preservação da identidade e a proteção da vítima devem ser prioridade.


